Há 2 semanas
segunda-feira, dezembro 29, 2008
terça-feira, dezembro 23, 2008
Engraçado descobrir que e o que falaram da gente pela vida toda pelas costas. Ainda mais de gente que nunca esperamos. Fico pensando no que a pessoa pensa antes de dizer aquele seu segredo tão doído que era pra ficar bem guardado para outras pessoas. Confiança é igualzinho louça chinesa: quebrou acabou. E nem mosaico eu vou fazer com o que sobrou...
segunda-feira, dezembro 22, 2008
Desde sexta estou fazendo uma retrospectiva interna do meu ano e de boa parte da minha vida. Depois tento colocar em palavras. Por hora fico com as sábias palavras do Kiko Zambianchi.
"Meu caminho é cada manhã
Não procure saber onde estou
Meu destino não é de ninguém
Eu não deixo os meus passos no chão
Se você não entende, não vê
Se não me vê, não entende
Não procure saber onde estou
Se o meu jeito te surpreende
Se o meu corpo virasse sol
Minha mente virasse sol
Mas, só chove e chove
Chove e chove
Se um dia eu pudesse ver
Meu passado inteiro
E fizesse parar de chover
Nos primeiros erros
O meu corpo viraria sol
Minha mente viraria
Mas, só chove e chove
Chove e chove..."
Não procure saber onde estou
Meu destino não é de ninguém
Eu não deixo os meus passos no chão
Se você não entende, não vê
Se não me vê, não entende
Não procure saber onde estou
Se o meu jeito te surpreende
Se o meu corpo virasse sol
Minha mente virasse sol
Mas, só chove e chove
Chove e chove
Se um dia eu pudesse ver
Meu passado inteiro
E fizesse parar de chover
Nos primeiros erros
O meu corpo viraria sol
Minha mente viraria
Mas, só chove e chove
Chove e chove..."
quinta-feira, dezembro 18, 2008
quinta-feira, novembro 20, 2008
A Nina me convidou e eu aceitei. Vamos ver o que sai... ;) 

Regras:
- Colocar o link de quem chamou para brincar.
- Escrever um texto sobre lembranças da infância.
- Postar o selo do meme dentro do artigo
- Se possível, postar uma foto de quando era criança ou adolescente.
- Chamar cinco amigos para brincar com você.
Viajar sozinha com a amiga aos 9 anos para João Pessoa. Brincadeiras de Polícia e Ladrão. Bala Xaxá. Coreografias ao som de Michael Jackson e Madonna. Show do Menudo em Goiânia. Comprar laranjinha por baixo do portão da escola. Assustados e luais a beira-mar. Todas as férias na praia. Acantonamentos incríveis. As melhors amiguinhas que uma criança po
deria ter. Casa da vó em Goiânia. Casa da vó em João Pessoa. Primeira ida ao Rio de Janeiro. Gosto de amora do pomar da tia. Coleções de papel de carta, postais, canetas, distintivos escoteiros. Sítio do Pica Pau Amarelo. Os trapalhões aos domingos. Radiola. Balão Mágico. Trem da Alegria. Carrinho de rolemã. Brincar de amarelinha, guerra de mamora e pular elástico. Tomar banho de chuva e chutar a água nas poças da rua. Brincar de casinha em baixo do beliche ou na casinha feita pela meu pai no quintal. Goiaba no pé. Forró nas festas gi
cantescas de Natal da família. Desejo de tirar a amigdala só pra poder tomar todo o sorvete do mundo. Pogoball. Boneca de pano feita pela mãe. Andar de ônibus sozinha e achar que já era mocinha. Apresentação de dança na escola. Tudo o que era simples e tinha gosto de importante.
E eu indico:

segunda-feira, novembro 10, 2008
quarta-feira, novembro 05, 2008
segunda-feira, outubro 20, 2008
De repente me dei conta que tenho 33 anos de verdade. Três décadas inteirinhas passadas em minha vida e mais uns anos de quebra pra não me deixar esquecer. Pode ser fator comum, mas é incrível como o tempo passou rápido e eu realmente não vi. Ontem respondendo a um garoto no Joti sobre minha idade me assustei.
33 anos e eu não fiz metade das coisas que imaginava fazer quando tinha 17, 18 anos. Não fui para a europa, não casei, não tenho duas filhas, não tenho um carro só meu, um apartamento na beira da praia... ah, sim: não ganhei na mega sena também.
Claro, fiz duzentas outras coisas em minha vida. E foram elas que fizeram o tempo passar tão rápido. Não posso dizer que não me arrependi de algumas coisas que fiz ou até que deixei de fazer neste tempo. Mas também aprendi muito com meus erros e também com meus acertos.
É... o tempo passou. E eu espero não me assustar de novo e acordar com 66 anos.
quinta-feira, outubro 16, 2008
O mundo, graças a Deus, é cheio de gratas surpresas. A melhor delas: os amigos que a gente conquista nesta vida. E quando você recebe uma surpresa destas batendo praticamente à sua porta a coisa fica ainda melhor.A semana passada foi o caos. Tanta correria para os últimos preparativos da festa de 40 anos do meu Grupo Escoteiro e eu estava uma pilha de nervos sem conseguir dormir. Lá pelas tantas da tarde, depois de quase tudo pronto no salão... tcharan... Léo, Peixe e Paulinha aparecem com o Raphinha para me fazer uma surpresa. Meu coração parou, gelou.
Mas que delícia ter amigos! Que delícia saber que mesmo longe eles estão tão pertinho de mim sempre. Desejo que todos tenham a mesma sorte que eu na vida.
quinta-feira, outubro 09, 2008
Há tanto tempo venho procurando
Venho te chamando
Você existe, eu sei
Em algum lugar do mundo você vive
Vive como eu
Onde eu ainda não fui
Como é o seu rosto?
Qual é o gosto que eu nunca senti?
Qual é o seu telefone?
Qual é o nome que eu nunca chamei?
Se eu esbarrei na rua com você
E não te vi meu amor
Como poderia saber?
Tanta gente que eu conheci
Não me encontrei só me perdi
Amo o que eu não sei de você
Como é o seu rosto?
Qual é o gosto que eu nunca senti?
Qual é o seu telefone?
Qual é o nome que eu nunca chamei?
Sei que você pode estar me ouvindo
Ou pode até estar dormindo
Do acaso eu não sei
Talvez veja o futuro em seus olhos
Pelo seu jeito de me olhar,
Como reconhecerei voce?
Essa música linda, do Biquini Cavadão, a Fernanda mandou pra mim... e realmente, é isto mesmo.
Venho te chamando
Você existe, eu sei
Em algum lugar do mundo você vive
Vive como eu
Onde eu ainda não fui
Como é o seu rosto?
Qual é o gosto que eu nunca senti?
Qual é o seu telefone?
Qual é o nome que eu nunca chamei?
Se eu esbarrei na rua com você
E não te vi meu amor
Como poderia saber?
Tanta gente que eu conheci
Não me encontrei só me perdi
Amo o que eu não sei de você
Como é o seu rosto?
Qual é o gosto que eu nunca senti?
Qual é o seu telefone?
Qual é o nome que eu nunca chamei?
Sei que você pode estar me ouvindo
Ou pode até estar dormindo
Do acaso eu não sei
Talvez veja o futuro em seus olhos
Pelo seu jeito de me olhar,
Como reconhecerei voce?
Essa música linda, do Biquini Cavadão, a Fernanda mandou pra mim... e realmente, é isto mesmo.
segunda-feira, setembro 01, 2008
quinta-feira, agosto 14, 2008
Tanta correria de julho pra cá e quase um mês se passou desde a última vez que escrevi por aqui. E eu continuo precisando de descanso, de fazer nada uma semana inteirinha. Férias para o corpo e para a mente.
Nesse meio tempo ajudei a organizar o melhor chá de panela que já fui na vida. Ficou tudo muito lindo e o melhor: a noite se divertiu, adorou e todas as convidadas também. E olha que tinha umas 70 mulheres. O casamento será no próximo mês e eu sou madrinha. Aliás, a madrinha sem roupa... oh God! ;)
Nesse meio tempo ajudei a organizar o melhor chá de panela que já fui na vida. Ficou tudo muito lindo e o melhor: a noite se divertiu, adorou e todas as convidadas também. E olha que tinha umas 70 mulheres. O casamento será no próximo mês e eu sou madrinha. Aliás, a madrinha sem roupa... oh God! ;)
quinta-feira, julho 24, 2008
segunda-feira, julho 21, 2008
Nossa, 20 dias sem escrever... nem vi este tempo todo passar durante este mês. Tudo tão corrido, tão acelerado no trabalho. Cada final de semana eu quis dormir. E muito! E o fiz o máximo que pude.
Mas julho trouxe gratas surpresas, como reencontrar amigos de mil e novecentos. Tão bom isto de ter estas pessoas de volta ao meu convívio. Espero que assim continue e que outras pessoas voltem a frequentar este meu mundinho acelerado pra ver se eu freio um pouquinho.
Mas julho trouxe gratas surpresas, como reencontrar amigos de mil e novecentos. Tão bom isto de ter estas pessoas de volta ao meu convívio. Espero que assim continue e que outras pessoas voltem a frequentar este meu mundinho acelerado pra ver se eu freio um pouquinho.
terça-feira, julho 01, 2008
quarta-feira, junho 25, 2008
Queria eu ter conhecido pessoalmente Dona Ruth Cardoso. Perda indescritivel. Uma mulher que sempre mostrou força, carinho, integridade, inteligência, preocupação com os outros, leveza, espírito de coletividade, simplicidade. Uma mulher que nunca viveu a sombra do marido, uma mulher que sempre esteve a frente do seu tempo. Realmente... queria eu tê-la conhecido.
domingo, junho 22, 2008
CAPRICÓRNIO: O Paciente. Pessoa agressiva e sábia. Prático e rígido. Ambicioso. Humorístico e engraçado. Pode ser um pouco tímido e reservado. Tende a agir antes de pensar e podem ser às vezes pouco amigáveis. Guarda rancor. Gosta de competição. Obtém tudo o que ele quer. Gosta do conforto material e emocional, quando sua vida estiver nesses termos, ele se sentirá feliz. O Elemento Terra confere um senso de responsabilidade e confiança àqueles regidos por ele. Eles são incapazes de deixar um amigo na mão, e você sempre poderá contar com eles se estiver em apuros. São também um pouco conservadores e usam sua lógica e inteligência aguçadas para defender suas opiniões e objetivos.
Será que eu sou assim?
Será que eu sou assim?
sexta-feira, junho 20, 2008
Em um dos casamentos que fui semana passada tocou uma música linda. Nunca tinha ouvido. Demorei uma semana (porque também tinha me esquecido do refrão) e hoje achei. Não é simplesmente uma música qualquer. É um poema do Emmanuel, psicografado pelo Chico Xavier. Alguém musicou e ficou perfeito... ainda mais para um casamento.
Alma Gêmea de minha alma,
Flor de luz de minha vida,
sublime estrela caída
das belezas da amplidão.
Enquanto eu errava no mundo...
triste e só, no meu caminho chegaste,
devagarzinho e encheste-me o coração.
Vinhas nas bênçãos das flores,
da divina claridade, tecer-me a felicidade
em sorrisos de esplendor!!
És meu tesouro infinito.
Juro-te eterna aliança.
Alma gêmea de minha alma...
Se eu te perder um dia,
serei tua escura agonia.
Se um dia me abandonares...
luz terna dos meus amores,
hei de esperar-te, entre as flores
da claridade dos céus.
Alma Gêmea de minha alma,
Flor de luz de minha vida,
sublime estrela caída
das belezas da amplidão.
Enquanto eu errava no mundo...
triste e só, no meu caminho chegaste,
devagarzinho e encheste-me o coração.
Vinhas nas bênçãos das flores,
da divina claridade, tecer-me a felicidade
em sorrisos de esplendor!!
És meu tesouro infinito.
Juro-te eterna aliança.
Alma gêmea de minha alma...
Se eu te perder um dia,
serei tua escura agonia.
Se um dia me abandonares...
luz terna dos meus amores,
hei de esperar-te, entre as flores
da claridade dos céus.
terça-feira, junho 17, 2008
sexta-feira, junho 13, 2008
Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.
Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável. Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.
Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.
Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.
Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.
Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.
Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.
Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.
Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também. Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.
Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração é teu.
[Caio Fernando Abreu - Na terra do coração]
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.
Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável. Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.
Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.
Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.
Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.
Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.
Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.
Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.
Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também. Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.
Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração é teu.
[Caio Fernando Abreu - Na terra do coração]
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